A exploração da preguiça
Henrique Madeira

       Para preguiçoso que sou, devo ser o preguiçoso que mais trabalha neste mundo. É claro que há muito boa gente que se esfalfa a trabalhar e que, por certo, trabalha muito mais do que eu. Mas esses são trabalhadores e assumem-se orgulhosamente como tal, por isso não contam para a minha estatística.  Eu sou um preguiçoso, já disse, e gosto de meditar nesta coisa espantosa que é estar sem fazer nada. Sou, digamos assim, um preguiçoso esclarecido.
Os preguiçosos esclarecidos trabalham muito, o que leva as pessoas as confundí-los com trabalhadores devotados. Conhecedores da sua própria natureza, afrontam-na constantemente criando situações que os obrigam a trabalhar. No meu caso, por exemplo, vim passar o meu ano de sabática à América, a grande pátria da fé no trabalho e na disciplina, não desfazendo noutros povos igualmente disciplinados e trabalhadores.
        Na América tudo se consegue (e o tudo reduz-se muitas vezes à palavra money) com trabalho e disciplina. É um lema nacional glosado por grandes presidentes e por industriais famosos que, de tanto trabalharem, ficaram imensamente ricos. Não há escola, não há clube desportivo, não há empresa que não escolha como mote uma das centenas de citações famosas que combinam em ditos inteligentes as palavras hard work and discipline.
        Para preguiçoso arranjei a profissão certa: sou professor universitário (sem ofensa para os meus colegas trabalhadores). Reparto assim o meu tempo entre dar aulas e fazer investigação (omito as actividades burocráticas para não arruinar a crónica). As aulas são trabalho puro, no sentido tradicional do trabalho produtivo, produzindo, no meu caso, engenheiros informáticos. A investigação, quando levada a sério, é coisa de preguiçosos, embora quase ninguém se aperceba disso. No meu caso, como passo o tempo quase todo a investigar, sei que esta é a actividade certa para mim, perguiçoso assumido.
        Toda a gente sabe que enquanto o homem se limitou a andar atrás das manadas de animais selvagens ou a praticar agricultura minimalista, tarefas que o ocupavam permanentemente, a humanidade não evoluiu praticamente nada. Foi a invenção do “tempo livre”, resultante da abundância de recursos, que disparou o processo criativo e gerou, em poucos milhares de anos, aquilo a que hoje chamamos progresso, nas suas vertentes científica, técnica e humanista. O acto criativo, no qual assenta toda a civilização, resulta de momentos de inactividade e da vontade em prolongar esses momentos através do progresso técnico, ou de aumentar o prazer a quem usufrui deles através da criação artística. Em resumo, o progresso resulta de uma grande vontade de não trabalhar, que é uma característica eminente dos preguiçosos, esclarecidos ou não.
        Percebe-se assim que nada melhor para a ciência do que empregar genuínos preguiçosos nesta actividade peculiar que é a investigação científica. O preguiçoso, pelo seu horror ao trabalho não criativo, exalta-se com a idéia de o eliminar através do progresso científico, nem que para isso tenha de trabalhar vinte horas por dia. Quando entusiasmado, é incansável e jamais corre o risco de se transformar num honesto funcionário, investigando apenas das nove às cinco e chegando a casa cansado, como se tivessem passado o dia a trabalhar.
        Na América a maior parte dos investigadores não são americanos. Chegam todos os anos vindos de países vistos pelo sistema americano como desorganizados e preguiçosos. Chegam com as licenciaturas já feitas, triados, seleccionados, prontos para investigarem os grandes problemas científicos americanos. Descobrem, por exemplo, novas técnicas para tratar doenças das coronárias ou novas partículas subatómicas, enquanto nos seus países de origem morrem milhões de pessoas de paludismo ou simplesmente de depauperação. Passam dias e noites a tentar a encontrar soluções para problemas complicadíssimos, peças no puzle tecnológico do qual depende o mundo ocidental, coisas que de um modo geral os americanos já não querem fazer. A América controla simplesmente o grande puzle.
        Nos fins de tarde, de regresso a casa, passo pelo imenso relvado do Shenly Park, mesmo junto à universidade, e vejo grupos de jovens investigadores vindos de todo o mundo. Continuam a trabalhar porque para eles aquilo que fazem não é trabalho. Sentados na relva, falam uns com os outros, discutem. Alguns já têm família e os filhos saltitam à sua volta vestidos de roupas alegres, disputando-lhes o colo onde eles equilibram computadores portáteis, sempre ligados. Passo pelo meio deles e ouço o riso das crianças. Alguns conheço-os, leio-lhes os artigos e agora sei também de que país vieram. Como as coisas são tão diferentes vistas assim, sabendo-lhes os nomes, vendo-lhes as caras. Quem os pode censurar se nunca mais voltarem? Eu vou para casa, passei o dia a trabalhar e sinto-me cansado. Se calhar não passo de um péssimo preguiçoso.