Para preguiçoso que sou, devo ser o preguiçoso que mais trabalha
neste mundo. É claro que há muito boa gente que se esfalfa
a trabalhar e que, por certo, trabalha muito mais do que eu. Mas esses
são trabalhadores e assumem-se orgulhosamente como tal, por isso
não contam para a minha estatística. Eu sou um preguiçoso,
já disse, e gosto de meditar nesta coisa espantosa que é
estar sem fazer nada. Sou, digamos assim, um preguiçoso esclarecido.
Os preguiçosos esclarecidos
trabalham muito, o que leva as pessoas as confundí-los com trabalhadores
devotados. Conhecedores da sua própria natureza, afrontam-na constantemente
criando situações que os obrigam a trabalhar. No meu caso,
por exemplo, vim passar o meu ano de sabática à América,
a grande pátria da fé no trabalho e na disciplina, não
desfazendo noutros povos igualmente disciplinados e trabalhadores.
Na América tudo se consegue (e o tudo reduz-se muitas vezes à
palavra money) com trabalho e disciplina. É um lema nacional glosado
por grandes presidentes e por industriais famosos que, de tanto trabalharem,
ficaram imensamente ricos. Não há escola, não há
clube desportivo, não há empresa que não escolha como
mote uma das centenas de citações famosas que combinam em
ditos inteligentes as palavras hard work and discipline.
Para preguiçoso arranjei a profissão certa: sou professor
universitário (sem ofensa para os meus colegas trabalhadores). Reparto
assim o meu tempo entre dar aulas e fazer investigação (omito
as actividades burocráticas para não arruinar a crónica).
As aulas são trabalho puro, no sentido tradicional do trabalho produtivo,
produzindo, no meu caso, engenheiros informáticos. A investigação,
quando levada a sério, é coisa de preguiçosos, embora
quase ninguém se aperceba disso. No meu caso, como passo o tempo
quase todo a investigar, sei que esta é a actividade certa para
mim, perguiçoso assumido.
Toda a gente sabe que enquanto o homem se limitou a andar atrás
das manadas de animais selvagens ou a praticar agricultura minimalista,
tarefas que o ocupavam permanentemente, a humanidade não evoluiu
praticamente nada. Foi a invenção do “tempo livre”, resultante
da abundância de recursos, que disparou o processo criativo e gerou,
em poucos milhares de anos, aquilo a que hoje chamamos progresso, nas suas
vertentes científica, técnica e humanista. O acto criativo,
no qual assenta toda a civilização, resulta de momentos de
inactividade e da vontade em prolongar esses momentos através do
progresso técnico, ou de aumentar o prazer a quem usufrui deles
através da criação artística. Em resumo, o
progresso resulta de uma grande vontade de não trabalhar, que é
uma característica eminente dos preguiçosos, esclarecidos
ou não.
Percebe-se assim que nada melhor para a ciência do que empregar genuínos
preguiçosos nesta actividade peculiar que é a investigação
científica. O preguiçoso, pelo seu horror ao trabalho não
criativo, exalta-se com a idéia de o eliminar através do
progresso científico, nem que para isso tenha de trabalhar vinte
horas por dia. Quando entusiasmado, é incansável e jamais
corre o risco de se transformar num honesto funcionário, investigando
apenas das nove às cinco e chegando a casa cansado, como se tivessem
passado o dia a trabalhar.
Na América a maior parte dos investigadores não são
americanos. Chegam todos os anos vindos de países vistos pelo sistema
americano como desorganizados e preguiçosos. Chegam com as licenciaturas
já feitas, triados, seleccionados, prontos para investigarem os
grandes problemas científicos americanos. Descobrem, por exemplo,
novas técnicas para tratar doenças das coronárias
ou novas partículas subatómicas, enquanto nos seus países
de origem morrem milhões de pessoas de paludismo ou simplesmente
de depauperação. Passam dias e noites a tentar a encontrar
soluções para problemas complicadíssimos, peças
no puzle tecnológico do qual depende o mundo ocidental, coisas que
de um modo geral os americanos já não querem fazer. A América
controla simplesmente o grande puzle.
Nos fins de tarde, de regresso a casa, passo pelo imenso relvado do Shenly
Park, mesmo junto à universidade, e vejo grupos de jovens investigadores
vindos de todo o mundo. Continuam a trabalhar porque para eles aquilo que
fazem não é trabalho. Sentados na relva, falam uns com os
outros, discutem. Alguns já têm família e os filhos
saltitam à sua volta vestidos de roupas alegres, disputando-lhes
o colo onde eles equilibram computadores portáteis, sempre ligados.
Passo pelo meio deles e ouço o riso das crianças. Alguns
conheço-os, leio-lhes os artigos e agora sei também de que
país vieram. Como as coisas são tão diferentes vistas
assim, sabendo-lhes os nomes, vendo-lhes as caras. Quem os pode censurar
se nunca mais voltarem? Eu vou para casa, passei o dia a trabalhar e sinto-me
cansado. Se calhar não passo de um péssimo preguiçoso.