Dar uma boa aula é
uma fonte de prazer; dar uma má aula é uma grande frustração.
É este o principal motor da formação pedagógica
dos docentes universitários que,
em larga medida, é um processo de auto-formação.
Consciente ou inconscientemente,
o jovem docente tenta emular os bons professores que conheceu, reproduzindo-lhes
o
estilo, os tiques e as notas (a até as anedotas) à margem
da aula. O tempo, a experiência
e o binómio prazer-frustração encarregam-se normalmente
de “fazer” o professor.
Na Universidade, mais ainda
do que em qualquer outro grau de ensino, o ingrediente
básico para o sucesso do processo formativo é a motivação.
A motivação é essencialmente
uma forma de obter prazer e de fugir à frustração.
Ou melhor, a motivação resulta da
expectativa do prazer que se espera obter em atingir um resultado desejado.
A motivação
resulta também do medo de falhar e da frustração
inerente à derrota. Aumentar a motivação
nos nossos alunos passa inevitavelmente por entender (e praticar) o
acto de aprender
através do jogo do prazer-frustração. E isso faz-se
fomentando a descoberta, utilizando
os erros como elemento de aprendizagem e elogiando os nossos alunos
sempre que tal é
merecido e adequado.
Os pequenos textos que se
seguem foram escritos para "O Diabrete", que é o jornal da
Escola Nº 16 de Coimbra. Foram escritos na qualidade de pai e
destinavam-se aos outros pais.
Apercebi-me mais tarde de que, ao escrevê-los, esteve em jogo
essencialmente a minha
experiência de professor. Seria muito fácil revertê-los
para o contexto do ensino e da sala de
aula. Mas vão no original, porque é muito bonito ser
pai.
Sou educador porque
sou pai, mas também sou professor por profissão
e por convicção. O melhor de entre todos os meus alunos
nunca me deu uma
resposta completa; deixou sempre lugar para pequenas correcções,
para a
sugestão que completava a sua ideia. Paralelamente, o melhor
professor
que conheci nunca me ensinou tudo. Habilmente, deixou sempre qualquer
coisa para eu descobrir sozinho.
O fenómeno
da aprendizagem consiste no correcto equilíbrio entre dois
tipos de emoções: a satisfação de ensinar
e o prazer de descobrir. A
primeira alimenta o ego do professor pelo mesmo princípio de
que a
dádiva enaltece o dador e a segunda gera no aprendiz o sentido
da posse
intelectual pelo conhecimento adquirido.
Mas como qualquer
jogo de emoções, também a aprendizagem funciona
num equilíbrio precário, onde facilmente o professor
se reduz ao rotineiro
funcionário e o aluno vê a sua curiosidade cerceada pelo
tédio de
aprender sem descoberta, sem sabor a aventura.
E como é fascinante
(ajudar a) desvendar o mundo. Mas o uso da
maiêutica, isto é, fazer descobrir aquilo que queremos
ensinar, só é
possível numa educação que privilegie a formação
da criança em
detrimento da transmissão empacotada de conhecimentos. Neste
contexto, é
clara a importância do papel de moderador do saber, de criador
de
ambiente de aprendizagem e de orientador de descobertas que deve ser
investido por todos nós, pais e professores.
Pense nisto. E quando
o seu filho lhe fizer perguntas, quando ele
quiser saber porque é que a água do mar é salgada,
ou porque é que fica
com febre quando tem uma infecção ou ainda porque é
que na China não
falam português, não fuja pelo caminho mais fácil.
Não lhe diga que são
coisas demasiado complicadas para a sua idade nem lhe afogue a
curiosidade com respostas acabadas. Se o seu filho lhe perguntar o
que é
o arco-íris responda-lhe antes com outra pergunta. Pergunte-lhe
porque é
que o céu é azul.
A verdade é que ninguém
é ensinado a ser pai; vamos aprendendo. E que
este aprender com a experiência não é mais do que
um longo processo de
observação e correcção dos erros que vamos
cometendo. Errar é, por isso,
uma componente fundamental do processo natural de aprendizagem, qualquer
que seja o objecto dessa apredizagem e qualquer que seja a idade do
aprendiz.
A infância e
a juventude servem para errar porque servem para aprender.
São uma espécie de artimanha que a natureza arranjou,
uma idade própria
para o exercício dos pequenos erros, para evitar erros maiores
na vida
adulta. A curiosidade e o sentido de aventura, eternas fontes de erros
para a juventude, não são mais do que motores da aprendizagem.
Cabe-nos
a nós, adultos (que também erram), entender isso.
A grande eficácia
da aprendizagem através do erro reside num facto
incontornável: errar é uma experiência dolorosa
(por vezes fisicamente).
É na frustração e no desconforto inerente ao erro
que se fixa a memória
da lição adquirida. E o conhecimento aprendido é
uma licção completa, e
não apenas uma resposta pronta a papaguear. Isto é, o
que fica na
memória é o processo de procura de soluções,
de observação e correcção
dos erros que levaram à solução certa, e não
apenas uma resposta pronta
fornecida por alguém. Aprender torna-se, deste modo, um desafio
interessante (por oposição ao tédio de ser ensinado),
uma luta contra as
nossa próprias limitacções, e não há
nada mais estimulante do que isso.
O problema é que
a sociedade (isto é, todos nós) está organizada para
condenar os erros e não para os tolerar, entender e utilizar
como
elemento essencial no processo de aprendizagem. Ensinar, como
contraponto a aprender, é o meio utilizado por pais e professores
para
poupar as crianças à dura experiência de errar.
Procura-se assim, desde
a mais tenra infância, poupar a criança aos pequenos erros
exercidos de
forma controlada e vigiada, sem pereceber que deste modo estamos a
retirar-lhe instrumentos para evitar erros futuros e, acima de tudo,
não
estamos a ensinar-lhe a lidar com a frustração do erros.
Compreender a
importância de errar na formação das pessoas é
o primeiro passo para
tolerar os erros dos outros, particularmente os erros dos nossos filhos.
É inútil
negar e nem é caso para ficar envergonhado, mas a verdade é
que ninguém fica indiferente a um elogio. Não me refiro,
claro está, ao
elogio fácil, nem à bajulação rasteirinha,
nem ao elogio hipócrita, nem
tão pouco ao elogio desajeitado que nos faz corar. Falo daqueles
momentos raros em que recebemos dos outros uma profunda sensação
de
apreço, de admiração pelos nossos actos, pelo
nosso esforço ou pelas
nossas pequenas conquistas.
Os elogios (ou a ausência
deles) são sinais poderosos que condicionam o
nosso comportamento e que regulam a maneira como nos relacionamos com
os
outros. E é algo tão profundo e arreigado que, frequentemente,
nem nos
apercebemos como muito das nossas vidas é determinado pelo impulso
do
elogio.
É espantoso como
a sociedade se organiza para o elogio e o
institucionaliza sob as formas mais diversas: a progressão na
carreira,
as medalhas, as homenagens, os prémios, os jantares em honra
de alguém.
São elogios pelo que somos; são elogios pelo que temos.
Por eles
aceitamos as tiranias da moda, compramos carros do último modelo,
sonhamos ser artistas, procuramos ser melhores. Vivemos assim toda
uma
vida, num estrebuchar inconsciente (e às vezes nem tanto) pelo
elogio,
desde o berço até à morte, desde o aplauso dos
primeiros passinhos ao
elogio fúnebre.
E, muitas vezes, não
nos apercebemos como os nossos filhos lutam pelos
nossos elogios. Não vemos que os elogios são a mola poderosa
que os
motiva para a descoberta, são o ingrediente necessário
que lhes espevita
o desejo de aprender, são o afago que lhes ameniza o desconforto
dos
seus pequenos insucessos.
Mas o elogio tem uma regra
fundamental: os tais momentos raros de que
falo, os verdadeiros elogios, vêm sempre de alguém que
de um modo ou de
outro nos é importante, de alguém a quem reconhecemos
autoridade e
saber. Por isso os nossos filhos lutam muito pelos nossos elogios.
Enquanto pequenos. Usemos, pois, esse grande instrumento pedagógico
que
é o elogio sincero. Não o banalizemos, mas não
sejamos avaros. Para não
ter de descobrir um dia, por força da nossa indiferença,
que os nossos
filhos já são indiferentes aos nossos elogios.